top of page

MEMÓRIAS BEGES E SAUDADES CINZAS

  • Foto do escritor: Isabeli Nascimento
    Isabeli Nascimento
  • 28 de jul. de 2019
  • 7 min de leitura

Atualizado: 29 de jul. de 2019


Crédito: Unsplash

Os vincos na pele macia demarcam o passar do tempo e acúmulo de lembranças, assim como as paredes de cores neutras e os sofás dispostos em forma de L no largo aposento são a prova fria do esquecer daquelas idosas sentadas com olhos fixos na televisão ligada no canal Viva, apresentando a reprise de uma novela antiga. Reinaldo Gianecchini beija uma atriz ao qual não reconheço e as mulheres da terceira idade suspiram, apesar de já terem visto a mesma cena antes, exceto a idosa sentada na poltrona marrom no canto mais distante da sala. Ela mantém os braços junto ao corpo pequeno, a manta lilás fina a lhe cobrir os ombros e a expressão resignada focada ao nada. É ao lado dela que me sento.


O sócio proprietário do Lar de idosos Vó Adele, indicou ela como possível fonte. Uma das nossas senhoras sãs, dissera ele. No entanto, perguntas simples como nome, idade e clima são prontamente respondidas com “não sei” e um mover incomodado. Tão logo ela foca o olhar na televisão, apesar de estar no comercial, deixando claro que meus questionamentos não são bem-vindos. Foi a primeira vez em que deixei de olhar as senhoras na sala como fontes e me pus no lugar delas. Eu era apenas a estranha que entrou em sua “casa” e começou a fazer perguntas. Não era sua médica, parente ou alguém familiar, apenas uma garota desconhecida cheia de perguntas e sem direitos sobre suas histórias. Com a ideologia falha de que idosos querem contar sua vida inteira de liberdade e lembranças sobre sua juventude, apenas para descobrir que na verdade eles apenas querem ela de volta.


Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2012 e 2017, o número de homens e mulheres com 60 anos ou mais nos albergues públicos cresceu 33%, de 45,8 mil para 60,8 mil. No entanto, esta pesquisa considerou apenas as instituições que recebem auxilio de poder público. Em complemento, a pesquisa do Instituto de pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estima o número alarmante de 100 mil idosos em abrigos públicos e privados no Brasil. Cem mil idosos sentados em cadeiras de madeira, camas ou sofás em um lar diferente de onde moram os outros membros de sua família.


O simpático proprietário do lar Vó Adele, Rauner de 49 anos, ainda carrega consigo o ideal inicial ao abrir o lugar “Lar é diferente de asilo, aqui temos uma relação de família. Não há nenhum idoso aqui que seja abandonado.” No entanto, ao sentar ao lado de Trude e desistir do gravador ou de me apresentar como jornalista, a senhora de oitenta e um anos murmurou tristemente “Estou abandonada” e melancolicamente sua fala ecoou nas respostas das outras idosas em conversas baixas poucos minutos depois.


Dona Trude tem cinco filhos, a primeira cuidou dela por um ano e dez meses, até as cores do marido, do filho de dez anos e de sua garotinha de vinte e quatro dias serem levadas pela morte, deixando o mundo de sua primogênita mergulhado no preto e branco da depressão, ao qual lidava desde a adolescência, mas nunca procurou ajuda até aquele momento. Então, o quarto filho acolheu a mãe. A nora saiu do emprego para dedicar seu tempo há ela e a sua própria saúde. Entretanto, a doença da mulher tornou-se mais grave do que a de Trude e assim, ela despediu-se do lar de mais um filho após um ano e seis meses. O terceiro filho é sozinho, a quarta bipolar e a quinta imersa em seu próprio vício por drogas.


Em entrevista ao Jornal Ponto, a geriátrica Andreia Moraes, apresentou a tese de que a decisão de colocar um ente querido em uma instituição asilar talvez seja tão delicada quanto a de desligar os aparelhos quando um paciente não possui mais chances de vida. De fato, para alguns filhos, como Aldemir, o filho da senhora com pijama branco e de poucas palavras, a separação é algo complicado, pensado demoradamente e tomado como última opção, o temeroso plano Z. No entanto, em algum momento o alfabeto de planos chegou ao fim e em um dia, talvez como aquele, com o céu cinza e a chuva encharcando o belo jardim, ao qual seria parte do novo lar de sua mãe, ele lhe deu um último abraço e deixou de ser sua referência de casa.


Mais de um ano depois, o homem alto de olhos escuros como os da mãe, entra na sala sem bater, familiarizado com o cômodo e com visita autorizada através do interfone no portão, mas com a expressão incomodada e ombros curvados ao andar. Ele segurou a mão da senhora com carinho e murmurou algo antes de perguntar porque ainda não estava pronta. Uma cuidadora surgiu e levou-a para outro cômodo, enquanto ele ocupou seu lugar no sofá. Os ombros curvando-se cada vez mais e os olhos voltados ao chão, talvez questionando se aquele seria seu “lar” no futuro.


“Para onde ela vai?” Perguntou uma senhora curiosa ao lado de Trude.


“Ela vai passear. Vai fazer raio-x do peito por causa da tosse.”


Pareceu-me tão estranho a animação e referência de hospital como passeio. No entanto, basta tão logo a empatia surgir novamente para notar que para pessoas acostumadas a passar os dias em meio as mesmas paredes beges, as frias paredes brancas e objetos esterilizados de um hospital se tornem passeio ao lado de que se ama. O pesar vem quando esse passeio tem seu final destinado ao fechar final de olhos, como foi o caso de Amélia, a primeira moradora do Lar Vó Adele, com nome parecido com flor e passos guiados por balé. Em fevereiro deste ano as últimas notas da sinfonia clássica da vida de Amélia foram tocadas, deixando para trás lembranças e lágrimas aos olhos de Rauner ao contar sobre ela.


Todavia, ainda há música em meio aos corredores da casa, provindas da sorridente e vaidosa Elvira de 84 anos. Sentada na poltrona mais a leste da sala, ao lado da televisão, onde todas podem vê-la, a idosa de cabelos pintados de negro e unhas de escarlate, contou sobre lembranças de baile sem que eu precisasse impeli-la. “O pai dizia que era vergonha uma mulher como eu, além de ir para o baile passar batom. Toda vez que ele via me mandava direto para casa para tirar antes de ir.” Afora esta exigência do pai, ela conta que os três irmãos mais velhos sempre arranjavam um jeito da menina ir e aprender um pouco mais sobre tocar acordeão. Os olhos brilham com a menção a música, enquanto passa a falar sobre notas e dança. “Meu Deus! A hora que eu melhorar da perna eu vou dançar de novo. Aí você vai ver.”


A conversa fluía de modo tão leve e ritmado que não notei quando os tons se alteraram para melancolia, até os olhos de Elvira nublarem-se, a voz diminuir e a frase “Estou abandonada” ressoar novamente pelo local. Mais uma vez a sala parece silenciar-se, como se cada marca nas feições das idosas acrescentassem um assentir aquela dolorida afirmação. Ela tomou minha mão e comparou nossas peles, olhou meu anel, usado como lembrança e mostrou suas duas alianças no anelar.


“Eu era casada, mas ele se foi para um lugar melhor... Eu fiquei aqui.”

Além dela, há outra viúva na casa, Maria Madalena, mas esta parece mais desapegada às memórias do falecido marido. Optando por não usar a aliança e o citando apenas brevemente quando recordou que já morou sozinha por nove anos após sua morte. Maria Madalena Vieira de 84 anos, mais conhecida como Lena é uma moradora parcial da casa. Passa os dias no Lar e as noites e fins de semana em casa. Seu nome já havia sido citado antes de ela o dizer, pelo próprio Rauner, sócio proprietário do local. Segundo ele, Lena era o exemplo da comodidade do lar, estava ali porque queria, não por necessidade, mas ao conversar com a leonina, a história alterou-se. Apesar do bom humor ao falar de seu mapa astral e pequenos detalhes de seu cotidiano, como o café quentinho que a anima de manhã, ela também citou o desejo por conseguir logo alguém para ficar com ela durante do dia. “Gosto mais de ficar em casa. Afinal, casa é casa.”


Os pequenos olhos castanhos curiosos voltaram-se para mim, afim de descobrir tanto sobre a garota desconhecida em “sua sala” quanto eu de descobrir mais sobre a senhora que nascera no mesmo dia da santa com seu nome. Duas filhas e um filho, mora na frente da maternidade local, recebe visita de uma psicóloga uma vez na semana, tem diabete e uma enfermeira lhe faz companhia em sua própria casa das 19 horas até às 7 horas da manhã seguinte, de domingo a sexta. Um dos netos acolhia uma mulher toda vez que ela apanhava do marido. Três anos depois a mesma mulher lhe apresentou uma criança ao qual após teste de DNA descobriu ser seu filho. Tem bisnetos na Itália e fala orgulhosa durante quase uma hora sobre os membros da família. O neto que mora em Florianópolis, a filha que a levou para Dionísio Cerqueira (cidade que faz divisa com Argentina), o neto que é maior do que ela, a filha que mora em Blumenau, a neta que vai fazer aniversário e uma dúzia de outros nomes aos quais me perco.


Lena é única que não usa a palavra abandonada, mas também é a única que tem uma casa com seu nome ao qual voltar todas as noites e fins de semana. A única que aceitou tirar foto, mas também a única que viaja. Ainda assim, apesar de tudo o que eu soube sobre ela, sei que há muito mais, assim como há muito mais do que abandono em cada uma das vinte e quatro mulheres daquele lar. Porque somos como areia da praia, ao longe uma coisa só, mas de perto mil parte de nós mesmos.

Ao fim das entrevistas, quando o sol já havia se posto e a chuva cessado, despedi-me de cada uma delas e antes de atravessar as portas de correr da saída prometi voltar, assim como alguns de seus familiares e assim como alguns deles ainda não voltei.

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


©2019 por Isabeli Nascimento. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page