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DOCUMENTAL

  • Foto do escritor: Isabeli Nascimento
    Isabeli Nascimento
  • 29 de jul. de 2019
  • 2 min de leitura

" A vida não passa de uma oportunidade de encontro,

só depois da morte se dá a junção,

os corpos apenas têm o abraço

as almas têm o enlace "

Victor Hugo


Silêncio, sossego, momento de matar a saudade ou se afundar na mais pura melancolia. Pode-se interpretar de várias formas, mas inevitavelmente, é um dos ambientes terrestres que mais provoca a inquietação humana. O cemitério.

     

Suzana, 35 anos, vê como um ambiente de paz, que não provoca medo algum. O costume é buscar a filha na escola que fica próxima do cemitério. Mas hoje, em uma ação atípica, ela resolveu visitar a sepultura de um amigo. A sensibilidade com que Suzana pronuncia a palavra amigo, denuncia um dos maiores balsamos para manter a sanidade humana, diante da morte: o elo. Elo no dicionário significa relação existente entre pessoas ou coisas. Amigo. Mesmo estando ali o que já foi um ser com vida carnal, a palavra amigo segue tendo o mesmo significado, mas com dor.

Há dúvidas de que tudo se acabe quando a cabeça bate com força no meio fio, ou o corpo não resiste a uma colisão. Mas há também certezas. A vida de quem trabalha dentro do cemitério é perceber essa inquietação. O Vigia diz que apesar do desrespeito que algumas pessoas tem pelo ambiente, é possível identificar as mais variadas interpretações sobre o cemitério e a essência da morte. “Tem gente que diz que morreu, vai pra um lugar, ou vai pra outro... Eu acho que só Deus que sabe. Quem vem aqui, mata a saudade, faz uma oração, alivia o que sente”, conta.


Concentrada, com o rosário entrelaçado nas mãos, uma senhora de 85 anos encontra na sepultura, um elo, com quem já não existe mais aqui na terra. “Eu venho sempre rezar um terço com esse rosário. Eu tenho um compromisso com minha sogra. Aqui é um local de muito respeito. É muito triste. A gente também vem pra cá, não sabe quando, mas vem.”


Se é possível existir o que não pode ser visto, ou ir para onde não se pode chegar

Pelas flores, estruturas e imagens, um casal saindo do enterro do amigo. “A gente visitou também a sepultura da ex-mulher dele”, conta ela, se referendo ao marido. Sim, quem fica continua construindo história.  “Quem morre, não morre. É só o corpo que descansa aqui, porque o espirito vive”, conta ela.


Paira a dúvida se a Necrópole é feita de pessoas que não existem mais, de almas ou de restos. Se é possível existir o que não pode ser visto, ou ir para onde não se pode chegar. Talvez o que mais inferniza os que ficam não é o esquecimento, é a ânsia eterna de saber o que acontece depois. O caminho para a loucura é procurar insistentemente essa reposta, é querer saber se a alma dança, vagueia, perambula. Se o esqueleto permanece imóvel, sujo, ou já virou pó.



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