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O CEIFADOR DE AMARRAS

  • Foto do escritor: Isabeli Nascimento
    Isabeli Nascimento
  • 26 de jul. de 2019
  • 3 min de leitura

Atualizado: 28 de jul. de 2019


Crédito: Instagram @YagoAlves

Segundo o dicionário Aurélio, amarra, em seu sentido de expressão, é tudo aquilo que prende, liga ou segura algo ou alguém. Na prática, ela pode ser estruturalmente formada por um emaranhado de fibras, aço, sentimentos ou pessoas. E como toda matéria, ela pode ser rompida.


No litoral de Santa Catarina, em meio a movimentada cidade de Balneário Camboriú, em um apartamento no oitavo andar, mora um ceifador de amarras, Yago Alves. A primeira amarra a ser rompida em sua vida, foi a mesma de todos nós, o cordão fino que o ligava a sua mãe. A despedida curta e de certo modo cruel de conforto quente e alimento certo.


A segunda foi a primeira linha de chegada, ao qual ele nem se recorda o nome da competição ou a data, devido as inúmeras que se sobrepuseram em importância e tempo. Entretanto, a sensação daquele dia, lhe ativou a dose de adrenalina necessária para o viciar a se despedir das tais linhas e amarras na vida.


Primeiro as linhas de chegada, depois as linhas nacionais, quando aos treze anos saiu do país para competir na Argentina. A próxima amarra o levou à Portugal. E na terra dos moinhos, em meio ao suor dos treinos e ruas de pedra, ele ceifou mais uma amarra, o conforto de casa e proteção dos pais, utilizando do esporte como sua foice. Sem temor ou saudades, o garoto, de então dezesseis anos, fez da cidade de Rio Maior sua morada por oito meses, então ceifou mais esta linha.


Com os pés de volta a terra natal, o rapaz seguiu despedindo-se de apegos. Continuou a correr em direção ao mar, à pista e a bicicleta e transformou o girar dos pedais na rotação de seu mundo. Mas o que há mais nesse mundo?


Quando questionado sobre seus gostos afora o esporte, Yago esfregou a testa pensativo, com os olhos fixando-se no tampo da carteira de madeira por um momento. Acostumado a falar de suas conquistas e dificuldades no triatlo, ele devaneou sobre uma pergunta simples, mas divergente de seu habitual.


— Video game... de futebol.


O devaneio continuou ao notar a volta ao tema esporte. Proporcionando um silêncio momentâneo em meio aos tijolinhos laranjas da sala 206 do centro acadêmico de jornalismo, até enfim recordar-se e começar a citar as preferências por livros de mistério, mitologia nórdica e Djoko.


Um nome diferente para um cachorro, aos seus olhos, diferente. A citação do vira-lata de médio porte, lhe trouxe brilho aos olhos. As mãos foram rápidas para o aparelho celular, afim de encontrar as fotos do animal. A primeira imagem a ser encontrada foi a do simpático animal de pelos claros, deitado confortavelmente no sofá da família Alves, com a boca aberta em um aparente sorriso e a grande língua rosada para fora.


Yago poderia ser definido como o típico dono orgulhoso ao continuar a mostrar diferentes fotos do cão, em diferentes posições e expressões. No entanto, Djoko é apenas um hóspede no apartamento 801. Chicão, seu amigo de esportes, é o legítimo dono do animal. No entanto, assim como Yago, o garoto é um ceifador de amarras e corre, nada e bicicleteia pelo mundo. Tendo de deixar sua amarra de quatro patas em determinados períodos, enlaçando o ceifador de amarras.


No fim das contas, o ceifador persiste com algumas linhas, a sua própria foice, o esporte, é uma delas. Intacta e firme, o unindo a pessoas e treinos, o puxando para longe do conhecido e o levando para o mundo.



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