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VIGIAS DO ESPELHO NEGRO

  • Foto do escritor: Isabeli Nascimento
    Isabeli Nascimento
  • 29 de jul. de 2019
  • 2 min de leitura

Photo by Ryoji Iwata on Unsplash

Você está sendo vigiado. Neste exato momento enquanto lê este texto há ao menos uma pessoa lhe observando. Um controlador de sites (programado para identificar suas preferências e tempo em cada página visitada), alguém vendo o pontinho verde ao lado do seu user no facebook ou em qualquer outra rede social, uma câmera de segurança... De um modo ou outro, seus movimentos estão sendo observados vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, doze meses por ano. Desde seu primeiro choro, até seu último suspiro.


Essa intensa vigia é demonstrada, ainda que de modo extremo, no episódio Urso Branco, da fantástica série Black Mirror. No episódio a personagem principal desperta amarrada em uma cadeira sem qualquer lembrança de quem é ou do quê fez. Sua única pista sobre o passado é a foto de uma garotinha, ao qual pensa ser sua filha. O episódio desenrola com sua fuga e descobertas sobre o quê realmente aconteceu. O conceito panóptico, encontra-se nas pessoas que a seguem e gravam tudo – Inclusive suas fugas e torturas – sem prestar qualquer ajuda.


Na atualidade, a vigia acabou por ditar um determinado comportamento das pessoas e exigir que todos tenham opinião sobre tudo. Com apenas alguns raros indivíduos escapando deste tsunami panóptico. As pessoas tornaram-se vigias e vigiados. As redes sociais tornaram-se a torre de espreita, onde é possível acessar a vida de pessoas que você nem mesmo cruzou o caminho pessoalmente. E como bônus você pode julga-lo à vontade, inclusive expondo a outros sua crítica, através de comentários abertos, mas cuidado, você também está incluído na lista de condenados do júri da vigia virtual.


No episódio citado acima é extremamente incomodo a tortura e mesmo quando se é descoberto que a, até agora, vítima é na verdade a vilã da história, o sentimento ruim persiste. Você sente vontade de gritar “parem!” para a tela, mesmo sabendo que nada pode ser modificado no episódio em questão. Hipnotizados pelas imagens refletidas no espelho negro diante de nossos olhos, o precioso celular ou tela do computador, persistimos angustiados até o fim dos 43 minutos, mas não nos sentimos transtornados diante dos vídeos hilários de pessoas brigando em vídeos da Web.


“Aquela vagabunda mereceu! Quem mandou sair com o marido de outra?”


“Viadinho! Tem que apanhar mesmo para ver se vira homem!”


“Devia matar. Bandido bom é bandido morto”


Todos os comentários acima foram retirados de publicações no Instagram (sem direitos legais de inclusão de nomes). Aí estão os vereditos finais dos vigias da realidade. Sem pena, filtro ou compaixão. Apenas a sede por uma justiça que os façam pagar na mesma moeda. Um ciclo sem fim de vingança.


O episódio “White Bear” de fato é chocante, mas nada mais é, do que o espelho negro de uma realidade vigiada que confia apenas no que seus olhos veem. Mesmo que isto seja apenas uma sombra da caverna, como no mito de Platão.

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©2019 por Isabeli Nascimento. Orgulhosamente criado com Wix.com

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